Em algum momento, pais e responsáveis podem perceber que aquela criança que costumava compartilhar suas experiências começa a demonstrar novos interesses, reivindicar privacidade e questionar decisões que anteriormente aceitava com maior facilidade.

Conversas que antes aconteciam espontaneamente podem se tornar mais breves. Os amigos passam a ocupar um espaço importante e surgem diferenças de opinião sobre horários, responsabilidades, relacionamentos e escolhas pessoais.

Diante dessas mudanças, algumas famílias se perguntam: por que a adolescência parece transformar tanto nossas relações?

A resposta não está simplesmente na ideia de rebeldia ou de afastamento familiar. A adolescência representa um período de transformações físicas, emocionais e sociais que também exige novas formas de relacionamento entre pais, responsáveis e filhos.

O adolescente está mudando, mas a família também precisa encontrar novas maneiras de se relacionar com ele.

A adolescência é muito mais do que uma fase de conflitos

Durante muito tempo, a adolescência foi frequentemente apresentada como uma etapa marcada por crises, instabilidade emocional e enfrentamentos inevitáveis com os adultos.

Entretanto, essa compreensão não representa a diversidade das experiências adolescentes.

Existem jovens que atravessam esse período com relativa tranquilidade, enquanto outros vivenciam conflitos intensos, dificuldades emocionais ou mudanças significativas nas relações familiares.

A forma como cada adolescente experimenta essa etapa depende de sua história, das relações que estabelece e das condições sociais, culturais e familiares em que vive.

A adolescência também pode ser um período de criatividade, descobertas, ampliação dos interesses, construção de amizades e desenvolvimento de novas capacidades.

Portanto, não se trata de compreender o adolescente como alguém que necessariamente apresenta problemas, mas de reconhecer um ser humano em desenvolvimento, com necessidades, desejos e experiências particulares.

Por que os adolescentes procuram maior autonomia?

Na infância, grande parte das decisões cotidianas costuma ser organizada pelos adultos responsáveis.

Com o crescimento, o adolescente passa a desejar maior participação nas escolhas que dizem respeito à própria vida.

Pode querer decidir sobre suas amizades, suas atividades, seus interesses e a maneira como utiliza seu tempo.

Esse movimento não significa necessariamente rejeitar os pais ou deixar de precisar de sua presença.

Significa que a relação entre dependência e autonomia está passando por transformações.

A pesquisadora Miriam Debieux Rosa (2002), ao discutir a adolescência sob uma perspectiva psicanalítica, examina a passagem da cena familiar para a cena social.

Nessa transição, o adolescente amplia suas referências de identificação e pertencimento, procurando construir um lugar próprio nas relações sociais.

A família continua sendo importante, mas deixa de representar o único espaço de referência para a construção de suas experiências.

Esse processo pode despertar sentimentos contraditórios. O adolescente pode desejar independência e, ao mesmo tempo, precisar de acolhimento, proteção e segurança.

Da mesma maneira, os pais podem reconhecer a importância do crescimento dos filhos e sentir dificuldades diante da necessidade de conceder maior autonomia.

Os pais também atravessam mudanças

A adolescência não transforma apenas a vida de quem está crescendo.

Ela também modifica as experiências daqueles que acompanham esse crescimento.

Pais e responsáveis podem perceber que determinadas formas de cuidado, anteriormente adequadas, já não correspondem inteiramente às necessidades atuais dos filhos.

O acompanhamento das atividades, a definição de regras e as decisões familiares passam a exigir novas formas de diálogo.

Isso não significa que os adultos precisem abandonar sua responsabilidade de orientar e proteger.

A questão está em reconhecer que o exercício dessa responsabilidade precisa considerar a ampliação progressiva da autonomia do adolescente.

Em algumas famílias, esse processo acontece por meio de conversas e negociações. Em outras, pode provocar desentendimentos, especialmente quando expectativas diferentes se encontram.

Também é importante lembrar que essas relações são atravessadas pelas condições concretas de vida, como jornadas de trabalho, dificuldades econômicas, organização dos cuidados familiares e oportunidades de participação social.

Cada família enfrenta essas transformações a partir de sua própria realidade.

Por que a comunicação se torna tão importante?

Uma das preocupações frequentes dos pais é a percepção de que seus filhos adolescentes passaram a conversar menos sobre determinados assuntos.

Entretanto, falar menos com os adultos não significa necessariamente que o diálogo tenha perdido importância.

Em uma pesquisa realizada com 295 adolescentes, Wagner, Falcke, Silveira e Mosmann (2002) observaram que a comunicação familiar continuava sendo valorizada pelos participantes.

Nesse estudo, 96% dos adolescentes consideraram a comunicação com a família muito importante.

Embora esses resultados pertençam a uma população e a um período específicos, ajudam a questionar a ideia de que a adolescência representa necessariamente o rompimento do diálogo entre pais e filhos.

Muitas vezes, a questão não está apenas na quantidade de conversas, mas na maneira como elas acontecem.

Uma conversa marcada exclusivamente por cobranças pode produzir uma experiência diferente daquela em que o adolescente também encontra oportunidade para expressar suas opiniões, dúvidas e sentimentos.

Escutar não significa concordar com tudo.

Significa reconhecer que o outro possui uma experiência própria, mesmo quando suas escolhas precisam ser discutidas ou limitadas.

Os conflitos familiares são inevitáveis?

Diferenças de opinião podem surgir em qualquer fase da vida familiar.

Na adolescência, essas diferenças podem adquirir novos significados porque envolvem questões relacionadas à autonomia, à privacidade e ao reconhecimento das capacidades do jovem.

Situações cotidianas, como o uso do celular, os horários de saída, a organização dos estudos ou as amizades, podem tornar-se motivo de divergência.

A pesquisa de Costa e colaboradores (2023), realizada com 36 adolescentes, investigou estratégias utilizadas diante de situações hipotéticas de conflito entre decisões pessoais e controle parental.

Entre as respostas identificadas, o diálogo e a explicação apareceram como a estratégia predominante.

Esse resultado sugere que os adolescentes não devem ser compreendidos apenas como sujeitos que contestam regras, mas também como participantes capazes de argumentar e procurar reconhecimento para suas posições.

Isso não elimina a necessidade de limites e responsabilidades.

Entretanto, permite considerar que determinadas divergências podem ser oportunidades para construir acordos, esclarecer expectativas e reorganizar a convivência familiar.

É importante distinguir conflitos cotidianos de situações de violência, humilhação ou ameaça, que exigem atenção e medidas de proteção adequadas.

O que a Psicanálise pode contribuir para compreender essa fase?

A Psicanálise oferece uma perspectiva para investigar as transformações subjetivas que acompanham a adolescência.

Na tradição freudiana, as mudanças da puberdade mobilizam questões relacionadas ao corpo, à sexualidade e à reorganização das relações afetivas.

A adolescência também pode envolver a revisão de imagens construídas durante a infância, a descoberta de novos interesses e a busca por referências para além do ambiente familiar.

Essas experiências não acontecem de maneira idêntica para todos.

A história individual, as relações familiares e as condições sociais participam da maneira como cada adolescente vivencia esse processo.

Nesse sentido, a escuta psicanalítica não procura enquadrar o jovem em um modelo universal de comportamento.

Busca oferecer um espaço no qual suas experiências, dificuldades, expectativas e conflitos possam ser expressos e investigados.

O adolescente não precisa ser compreendido apenas a partir daquilo que os adultos dizem sobre ele.

Sua própria palavra também ocupa um lugar fundamental.

Como os pais podem acompanhar essas transformações?

Não existe uma fórmula universal para construir boas relações familiares durante a adolescência.

Entretanto, algumas atitudes podem contribuir para preservar o diálogo e reconhecer as necessidades que surgem nessa etapa.

Demonstrar interesse pelas experiências dos filhos, respeitar espaços possíveis de privacidade, estabelecer limites proporcionais à idade e às circunstâncias e permitir que o adolescente participe de decisões adequadas ao seu desenvolvimento são possibilidades que merecem consideração.

Também é importante reconhecer que os adultos podem sentir insegurança, preocupação ou dificuldade diante das mudanças.

A convivência familiar não exige que todos concordem constantemente, mas pode se beneficiar de relações nas quais as diferenças sejam discutidas com respeito.

Há momentos em que a família consegue reorganizar suas relações por meio do diálogo cotidiano.

Em outros, o sofrimento emocional ou as dificuldades persistentes podem justificar a procura por acompanhamento profissional.

Essa avaliação deve considerar as particularidades de cada situação, sem transformar comportamentos comuns da adolescência em sinais automáticos de adoecimento.

Crescer não significa deixar de pertencer

A adolescência representa um movimento importante na construção de novas maneiras de estar no mundo.

O jovem passa a ampliar suas relações, descobrir interesses e construir formas próprias de compreender a vida.

Ao mesmo tempo, os vínculos familiares podem continuar oferecendo referências de cuidado, proteção e pertencimento.

Talvez um dos desafios dessa etapa seja compreender que o crescimento não exige necessariamente o rompimento dos laços familiares, mas pode requerer sua transformação.

Os pais precisam reconhecer que seus filhos estão construindo novos caminhos. Os adolescentes, por sua vez, continuam podendo encontrar na família um espaço de referência, diálogo e acolhimento.

A adolescência não precisa ser compreendida como o fim de uma relação, mas como a possibilidade de descobrir novas maneiras de permanecer vinculado.

Referências científicas

ROSA, Miriam Debieux. Adolescência: da cena familiar à cena social. Psicologia USP, v. 13, n. 2, p. 227–241, 2002. Consultar na SciELO ↗

WAGNER, Adriana; FALCKE, Denise; SILVEIRA, Luiza Maria Braga de Oliveira; MOSMANN, Clarisse Pereira. A comunicação em famílias com filhos adolescentes. Psicologia em Estudo, v. 7, n. 1, p. 75–80, 2002. Consultar na SciELO ↗

COSTA, Lívia Braga de Sá; CAMINO, Cleonice Pereira dos Santos; VASCONCELOS, Dalila Castelliano de; ASSIS, Natália Lins Pequeno de; SILVA, Moisés Fernandes de Araújo. Resolução de conflitos familiares por adolescentes e defesa do domínio pessoal. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 43, e254483, 2023. Consultar na SciELO ↗

Texto informativo de caráter geral. Não substitui avaliação individual nem constitui promessa de resultados.

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